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wahid al-ahad

SUFISMO TERMOS — AL-WAHID AL-AHAD – UM E ÚNICO


Stephen Hirtenstein, O compassivo ilimitado: a vida e o pensamento espiritual de Ibn Arabi

Muito tem sido escrito sobre as supostas doutrinas de Ibn Arabi — com muita frequência é rotulado de panteísta, monista, até mesmo herético, por aqueles que tentam reduzir o ambíguo mistério da Unicidade a algo mais confortável. Considerar a Unicidade da forma que Ibn Arabi a apresenta não tem nada a ver com noções simplistas como “todas as coisas são realmente Uma”. Para ele há dois tipos fundamentais ou aspectos da Unidade combinadas no Nome Wahid al-Ahad. Estes dois são provavelmente o significado original de Janus, a divindade romana bicéfala dos portões, que vigiava os dois lados. Por ser também o deus dos começos, deu seu nome ao mês que inicia o ano, janeiro. Um verdadeiro entendimento da Unicidade tem profundas implicações na visão de nós mesmos, pois a descrição que Ibn Arabi faz dos números é, na verdade, uma precisa descrição da consciência de si e da contemplação.

Ibn Arabi conecta este conhecimento à adoração, sendo entendida aqui em seu sentido mais universal:

Aquilo que é adorado por todas as línguas, em todos os estados e todos os tempos é o Um. Cada adorador, de qualquer tipo, é o Um. Portanto não há nada exceto o Um ... e não há existência para outro que não o Um. Não há tal coisa como multiplicação: quando o Um se manifesta em dois graus inteligíveis, é chamado de dois, como este II; quando se manifesta em três graus é assim: III... Essa é a Unicidade de Deus, o Real: somos manifestados pela Unicidade do Real. Se Ele não fosse, nós não seríamos, mas nossa existência não necessita que Ele, louvado seja, não seja.


Estas passagens nos permitem analisar alguns dos pontos-chave da exposição de Ibn Arabi. A Essência (dhat), base de tudo que existe, é Um, tanto essencialmente como pelo nome, e esta Unidade possui dois aspectos. De um lado, o Um denota a inefável Origem e Essência além de qualquer ideia de numeralidade, e talvez até mesmo chamá-la de Um ou falar de Unicidade é inapropriado. E Única em Si Mesma. O símbolo mais forte de unicidade transcendente é o conceito de zero, primeiramente desenvolvido na Índia no início da era cristã e depois muito usado por matemáticos árabes medievais. O termo árabe para zero, sifr (como o sânscrito shunya) significa “vazio” ou “vácuo”, isto é, a completa ausência de número. O mesmo princípio pode ser encontrado no manuscrito do século XII do Monastério de Salem: “Cada número vem do Um e este por sua vez do Zero. Há nisto um grande e sagrado mistério.” Para expressar isto em termos metafísicos, Ibn Arabi geralmente emprega o termo ahadiyyat al-ayn, que pode ser traduzido por Singularidade da Origem ou Unicidade da Essência, e é cauteloso ao afirmar que esse Único Um não pode ser conhecido.

Por outro lado, o Nome “Um” igualmente designa um significado que implica e requer numeralidade — que sentido haveria na palavra ou na ideia de “um” se não houvesse também dois e três e assim por diante? Esses “outros” números estão contidos dentro da Unicidade da Própria Essência, indiferenciados devido à dominância da condição de Ser Ela Própria, mas esperando em suspensão, como que para serem expressados. Representam possíveis expressões ou modalidades para aquela Essência e isso é o que Ibn Arabi chama de al-ayan ou al-ayan al-thabita, as essências, as realidades essenciais estabelecidas dentro da Unicidade. Os dois aspectos estão resumidos no Nome duplo Wahid al-Ahad.

Como se por reflexo de um espelho, essas essências ou possíveis expressões do Nome Divino também possuem dois lados. De um modo, essas possibilidades são idênticas à Própria Essência — o número três é uma possível configuração do Um e é simplesmente um modo de ver esse princípio unitário. De outro modo, as possibilidades são diferenciadas entre si — o três não é o dois, da mesma forma que a qualidade particular da misericórdia não é a mesma que a qualidade da vingança.

Quando essas modalidades são expressas no mundo visível, elas são “graus” nos quais e de acordo com os quais o Um se manifesta. O Um, enquanto ainda permanece na Unicidade, em Seu Próprio nível, Se manifesta nos graus de pluralidade. O Um não se torna múltiplo, simplesmente revela Suas múltiplas possibilidades inerentes. Como Ibn Arabi diz, um multiplicado por um é igual a um, enquanto um multiplicado por dois é igual a dois. Cada “coisa” manifesta a Unicidade de acordo com sua natureza, capacidade e possibilidade, e isto também tem dois aspectos: na medida em que a coisa manifesta o Um, possui uma imensa e extraordinária dignidade, que é sua própria e verdadeira unicidade; na medida em que a coisa aparece como si mesma, é transitória, limitada e “outra” que não o Um.


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